quarta-feira, 6 de março de 2013

Educação Moderna - by Monga

Salão de cabeleireiro num sábado de garoa é mesmo o refúgio das mulheres entediadas, especialmente numa cidade litorânea, onde a praia se torna a última opção nesse caso, e a praia é na verdade a única opção, fora o salão do Jerry. O papo descompromissado e vazio corre entre as que fazem as unhas. As que estão sentadas sob o perigo iminente das tesouras, não desgrudam os olhos do espelho , atentas ao menor deslize das habilidosas mãos, que possam vir a cortar mais que um milimetro das caras e louras madeixas. Tudo corre em santa paz feminina e o cafezinho e as revistas de fofoca são bem-vindos na tarde preguiçosa. Mas eis que num repente, a atmosfera muda radicalmente quando entram no salão uma senhora, sua jovem filha e os adoráveis netos: um menino em torno dos seus cinco anos e uma linda garotinha um tantinho menor. Depois dos cumprimentos de praxe e dos gestos de simpatia da clientela para com as adoráveis criancinhas, eis que algo vai mudando no ambiente perfumado. As revistas são arremessadas de uma criança para a outra, uma sobe no banco e cai chorando, a mãe levanta os olhos da Caras do mês, mas nada faz. A avó levanta-se, recolhe o garoto do chão e manda que ele pare, enquanto a menorzinha espalha os vidros de esmalte da mesinha auxiliar. De início sutilmente, mas num crescendo as vozes se tornam mais altas, mais tensas, mais impacientes... As crianças correm, uma bate sem querer no cabeleireiro que por pouco não decepa a orelha da jovem de olhos arregalados, mas uma mexa de cabelo louro cai da mão do rapaz que num gesto denunciador tapa a boca com a mão, mas um ohhhh histérico lhe escapa, enquanto da boquinha vermelha da moça sai um sonoro... "porra!! " A manicure, uma sergipana de pouco riso e muitas contas a serem pagas, pede um minutinho à cliente e passa um esmalte clarinho nas unhas da fera mirim para ver se ela abandona os vidros de esmalte, mas o intrépido moleque passa a mão na acetona que rapidamente se espalha sobre o colo e a bolsa cara da cliente que cedera sua vez à maninha monstro... Eis que o caos se instala de vez no salão, com mulheres a beira de um ataque de nervos, uma avó constrangida, e uma jovem mãe que parece achar tudo aquilo normal e que espera da parte dos demais a compreensão e a tolerância que seus anjinhos merecem. Eu ali, esperando minha vez de ser atendida, resolvo me fazer de morta e não desgrudo os olhos das palavras cruzadas, embora vez por outra, num sobressalto, a caneta faça um risco desnecessário no passatempo que não evolui naquela tensão pré menstrual e pós menopausa geral... Na hora em que, finalmente, sou chamada a ocupar a cadeira do Jerry, meu ídolo capilar, o capeta infantil pela terceira vez abre a torneira do lavatório e feliz como um bombeiro em dia de batismo, dá uma chuveirada em todos que estão ao redor, causando um frisson generalizado na mulherada e uma poça inconveniente no salão... É quando o Jerry, gay parrudo e que no RG responde pelo sonoro nome de Jeremias, larga sua tesoura, e num passo de balé invejável, cata cada um dos anjinhos num dos braços, os coloca com pouco jeito no colo da surpresa mamãe e diz com aquele seu jeito doce que me encanta: _"Ô minha querida, se recolha com suas crias a outro templo da beleza, por favor, que hoje eu já dei o que podia dar em termos de paciência e aqui não temos profissionais pra lidar com tanta educação moderna, viu santa?!" Enquanto a ofendida família saia do salão pisando duro, só pude dizer ao Jerry agradecida; "_Demorou!!" - Monga -

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