sexta-feira, 29 de março de 2013

Amores doentios - by Songa


                                   

Hoje eu a vi.
Aquela que um dia foi meu ídolo, meu exemplo de decisão, determinação e conquista.
Aquela que me inspirava na busca de uma vida com liberdade, autonomia, respeito e dignidade.
Moça miúda, traços bem feitos, físico delicado, porém, de personalidade forte e audaciosa.
Admirada por outras, tão altivas quanto ela e odiada pelas covardes e invejosas. Sempre muitíssimo bem vestida, circulava pelo interior do importante banco internacional, deixando no rastro o cheiro do perfume bom e o barulhinho dos saltos dos sapatos finos e elegantes.
No início dos anos 70, eu não conhecia muitas mulheres que dirigiam, mas eu a conhecia e ela dirigia. Mas não dirigia um carro qualquer, dirigia um karmann guia, VERMELHO E CONVERSÍVEL..........
Era época das rodas de samba, não como se concebe hoje, encontro de quem é “povão”, era um “evento” dos considerados “descolados” da época e frequentado pelos rapazes, basicamente pelos rapazes.
Não sei se por apreciar o gênero musical ou só pra desafiar, ela ia.
E quando chegava, desestruturava até o mais machão do pedaço, não porque chegasse chegando, porque sempre exercitou seu direito de ir e vir (um absurdo para a época), sem alarde, sem queimar soutien, sem perder o charme e a feminilidade.
Apenas chegava.
Emprego tinha 3, porque quando queria, ela tinha e sempre com recursos próprios, fruto de seu trabalho.
Desde muito cedo os pais perceberam que era melhor economizar o “Não”, precisavam de argumentos sólidos para demovê-la de alguma decisão tomada.
E assim seguiu a moça, livre, confiante, realizadora, altiva e segura.
Até que um dia........ah um dia!!!...........ah o dia!!!............que dia!!!!
O dia em que os caminhos se cruzaram.
Italianinho marrento, topetudo, desafiador, não digo sedutor porque não tinha elaboração para tanto, mas ela estava muito frágil para perceber isso e, pela primeira vez na vida, se deixou conduzir por ele.
Seu único “mérito” foi que, para sorte dele e azar dela, encontrou-a frágil  pela morte do pai tão amado por ela e, talvez, querendo ocupar o vazio no peito com outro amor, mergulhou de cabeça.
Ele dizia que o jeito dela o tinha cativado, com o passar do tempo, demonstrou que o jeito dela foi o espelho por onde ele percebeu tudo aquilo que ele NÃO era.
E foi assim que começou a destruir o que ele não conseguia ser.
É certo que só nos fazem o que permitimos, mas a covardia do ataque durante a fragilidade é golpe dos covardes, isso é fato.
Os anos que se seguiram foram ocupados, por ele, na destruição daquela moça bonita e segura.
Quando foi embora, porque ninguém fica em terra destruída, levou com ele muito mais do que os bens materiais que ela possuia quando se conheceram.
Levou a alma dela, mas deixou-lhe 2 filhas..........que ela teve que criar sozinha, evidentemente.
Hoje, ela é uma senhora, ainda de traços bonitos e delicados, mas sem o brilho no olhar, sem nenhuma confiança em si mesma, com a vida à deriva e os pensamentos como areia movediça.
Não sei se em respeito ao passado ou se por acreditar que ela esteja presa em algum canto, dentro de si mesma , mas ainda possuidora da mesma força que sempre teve, eu olho pra ela e ainda consigo ver a moça bonita.
Chamo pela moça bonita, convido-a a sair de si, digo-lhe que o algoz já foi embora e, embora ainda muito assustada, eu percebo que ela vem à janela, ela ainda anseia por ver o mundo.
Todos tem certeza que a moça bonita morreu, que essa que se arrasta por aí é só um espectro.
Mas não é, ela é a moça bonita que ainda está assustada com o rastro de destruição deixado pelo furacão que assolou-lhe a vida.
Todos que cruzam o nosso caminho, tem uma função.
Na minha vida, a função dela foi mostrar que o mundo ia além do meu portão.
A minha função, na vida dela, é chamar a moça de volta pro mundo,
E eu chamo e chamarei sempre a moça.
Vem moça, vem.
Fui ver o mundo pela sua mão.
Tome a minha e venha, volte, olhe, sinta, VIVA!!




4 comentários:

  1. Coragem,luta e muito animo!!!

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    1. É o que tenho tentado passar pra ela, Anônimo.
      Vamos torcer por ela.
      Obrigada pelo comentário.

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  2. Songa by Monga...entendi seu recado.
    E como vc eu tenho Fé e continuo a torcer por ela.
    Eu é que agradeço!!!

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  3. Eu acho, na minha humilde opinião, que se a moça não sai, o topetudo continua vencendo, mesmo sem saber. Como diz o poeta: Reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Acho que jamais voltamos ao estado anterior, mas nossa essência não se perde (e tanto é assim que a moça continua lá e vem a janela, as vezes). Diariamente somos outros e outras. Festejemos o nosso eu de hoje, e aguardemos o de amanhã...

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